O proprietário já chega com o preço pronto. Quase sempre ele vem de uma dessas três fontes: o vizinho vendeu por tanto, ele viu um anúncio parecido, ou ele precisa desse valor para comprar o próximo imóvel.
Nenhuma das três tem relação com o que o mercado paga.
E o corretor que aceita esse número para não perder a captação está fazendo o pior negócio possível: vai carregar por meses um imóvel que não vende, gastando anúncio e visita, para no fim ter a conversa difícil de qualquer jeito — só que com o imóvel já queimado.
Imóvel anunciado acima do mercado não fica parado de graça. Ele se deteriora como produto:
Uma redução feita no terço final do prazo raramente recupera o que se perdeu no começo.
ACM é um trabalho simples de descrever e trabalhoso de fazer direito: comparar o imóvel com outros semelhantes, na mesma região, ajustando as diferenças entre eles para chegar a uma faixa de valor defensável.
A palavra que sustenta tudo é ajustando. Sem ajuste, comparar é só olhar anúncio — que é o que o proprietário já fez sozinho.
1. Escolha comparáveis de verdade. Mesma região, mesma tipologia, padrão construtivo próximo. Um apartamento de dois dormitórios com vaga não compara com um sem vaga, ainda que a metragem bata.
2. Prefira fechamento a anúncio. Preço de anúncio é pedido, não preço pago. Quando só houver anúncio disponível, considere que existe uma margem de negociação embutida e trate o dado como teto.
3. Ajuste as diferenças, uma por uma. Área, estado de conservação, idade da construção, andar, posição solar, vaga, elevador, condomínio. Cada ajuste deve ter um motivo que você consiga explicar em voz alta.
4. Descarte o que destoa. Se um comparável está muito fora da média dos demais, quase sempre há uma razão que você não enxerga — venda entre parentes, urgência, problema de documentação. Ele contamina a conta.
5. Entregue uma faixa, não um número. "Entre X e Y, com anúncio sugerido em Z" é mais honesto e mais útil que um valor exato que ninguém consegue justificar.
Preço de anúncio e preço de fechamento são coisas diferentes. Trate os dois desde o primeiro dia.
A diferença entre uma conversa difícil e uma conversa produtiva é o que você leva na mão.
Sem documento, você está dando uma opinião — e a opinião dele vale tanto quanto a sua, com a vantagem de que o imóvel é dele. Com um documento que mostra os comparáveis, os ajustes e a faixa resultante, a discussão deixa de ser você contra ele e passa a ser os dois olhando o mesmo mercado.
Três coisas ajudam nessa reunião:
É o que o mercado paga — e o seu trabalho é mostrar a diferença com dado, não com discurso.
ACM serve para orientar venda: definir preço de anúncio, negociar com proprietário, embasar proposta. É um instrumento comercial.
Há situações que exigem outro documento: processo judicial, inventário, partilha, garantia bancária, disputa societária. Nesses casos o que se pede é um parecer técnico de avaliação mercadológica, elaborado conforme a ABNT NBR 14.653 e assinado por profissional habilitado com registro próprio para avaliação.
Confundir os dois é um erro que aparece tarde e caro. Se o cliente diz "é para o juiz" ou "é para o banco", ACM não resolve.
Mas para o dia a dia da captação e da venda, uma análise comparativa bem feita é a diferença entre um imóvel que vende em sessenta dias e um que envelhece no portal.
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